Conceito · 11 min

Toda porta é uma rotação

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X, Z e H não são operações abstratas: são giros da esfera de Bloch. E porque são giros, a ordem em que você aplica muda o destino.

Ao final desta aula você vai conseguir
  • Identificar cada porta com um eixo e um ângulo de rotação
  • Usar rotações para alcançar qualquer ponto da esfera
  • Explicar por que a ordem das portas altera o resultado
Antes de começar

2 símbolos novos aparecem nesta aula

Nenhum deles é conta. São formas de escrever — e cada uma tem um jeito de falar em voz alta.

θlê-se “teta”
Letra grega usada, aqui como em toda a matemática, para ângulo. Nas portas de rotação, é o quanto se gira o qubit.
πlê-se “pi”
O 3,14159… da circunferência. Em ângulos, π equivale a meia volta (180°) e π/2 a um quarto de volta (90°).
Toda a notação, num lugar só

Até agora as foram caixas-pretas: H espalha, X inverte, Z troca um sinal. Existe uma imagem única que explica as três de uma vez, e ela também explica todas as portas de um que você ainda vai encontrar.

Ideia-chave

Toda porta de um qubit é uma rotação da esfera de Bloch. X gira meia volta em torno do eixo x. Z gira meia volta em torno do eixo z. H é uma meia volta em torno de um eixo inclinado, no meio do caminho entre x e z — e é por isso que ela troca esses dois eixos de lugar.

Essa imagem explica de imediato coisas que antes pareciam coincidência. Duas aplicações de H devolvem o estado porque duas meias voltas em torno do mesmo eixo somam uma volta inteira. Z não faz nada em porque |0⟩ está exatamente sobre o eixo z, e girar em torno de um eixo não move quem está sobre ele.

Rotações de qualquer ângulo

X, Z e H são rotações de meia volta, com ângulo fixo. As portas RX, RY e RZ generalizam isso: você escolhe o ângulo. É com elas que se alcança qualquer ponto da esfera, não só os oito ou dez pontos notáveis.

RY(θ)|0⟩ = cos(θ/2)|0⟩ + sen(θ/2)|1⟩
P(1) = sen²(θ/2) — o ângulo controla a probabilidade de forma contínua

Repare no dividido por dois. Uma rotação de meia volta na esfera, θ = , leva |0⟩ até — que na esfera são pontos opostos, separados por meia volta. A comprime ângulos de estado pela metade, e é por isso que uma volta completa de 2π não devolve exatamente o estado de partida, mas sim ele com o sinal trocado.

A ordem importa

Aqui está a consequência menos óbvia e mais importante de pensar em rotações. Se as portas fossem números sendo multiplicados, a ordem não faria diferença. Mas rotações no espaço não funcionam assim.

A imagem que costumam usar

Aplicar portas é como somar operações numa calculadora: o que importa é o conjunto, não a ordem. Girar um pouco para um lado e um pouco para o outro dá no mesmo, independentemente de qual veio primeiro.

Duas mãos giram simultaneamente dois botões de painel idênticos.
Onde ela quebra

Pegue um livro. Gire um quarto de volta em torno do eixo vertical e depois um quarto em torno do horizontal. Agora recomece e faça na ordem inversa. O livro termina apontando para lugares diferentes — rotações no espaço não comutam, e isso vale igualmente para as rotações da esfera de Bloch. O circuito ao lado faz RY e depois RX, com uma Hadamard no fim para tornar a diferença visível na medição. Compare com a ordem trocada no experimento: um dá certeza absoluta, o outro dá cara ou coroa.

q0|0⟩
RY, depois RX, depois H: certeza total — trocar os dois primeiros destrói isso
Por que isso é o que torna a computação quântica difícil

Se as portas comutassem, a ordem de um circuito não importaria e projetar algoritmos seria escolher um conjunto de operações. Como não comutam, a sequência é o algoritmo. Escrever um circuito quântico é coreografar rotações.

Cheque sua intuição
1Por que a porta Z não altera um qubit em |0⟩?
2Que ângulo θ em RY(θ) leva |0⟩ até |1⟩ com certeza?
3O que significa dizer que as portas não comutam?