A câmara de colisões se abriu numa sala longa. Na parede central havia duas fendas estreitas; atrás delas, uma tela capaz de registrar cada impacto. Lia já conhecia todos os ingredientes, mas nunca os vira reunidos numa pergunta tão simples.
Com apenas a fenda esquerda aberta, a amplitude na tela era ψ₁ e a regra de Born produzia |ψ₁|². Com apenas a direita, surgia |ψ₂|². Com as duas abertas e nenhum registro de caminho, a amplitude era ψ₁+ψ₂. A distribuição não era a soma das duas imagens isoladas, mas |ψ₁+ψ₂|².
Tomás diminuiu a fonte até lançar uma partícula por vez. Cada chegada marcou um ponto indivisível. Depois de muitos eventos, franjas claras e escuras emergiram. O padrão não exigia pares de elétrons encontrando-se no ar; a amplitude de cada preparação continha alternativas capazes de interferir.
Lia perguntou por qual fenda o elétron passara. A frase parecia inevitável, mas pressupunha que uma trajetória definida existira sem deixar qualquer consequência. Se um detector fosse instalado para responder, o estado conjunto mudaria e a interferência poderia desaparecer. A pergunta não era proibida; tinha custo físico.
A regra de Born explicava as contagens, mas tornava a intuição clássica ainda mais desconfortável. No nível dos eventos, pontos. No nível da distribuição, ondas. Entre ambos, amplitudes complexas somadas antes de virar probabilidades. Nenhum desenho de bolinhas em caminhos desconhecidos reproduzia tudo sem estrutura adicional.
A Parte 2 começara com de Broglie invertendo uma pergunta e terminava com matéria produzindo interferência calculável. Níquel confirmara a escala h/p. Schrödinger ensinara amplitudes a evoluir. Born ensinara detectores a lê-las. A teoria agora sabia prever o desenho na tela.
O que ela ainda não oferecia era uma história clássica para cada ponto. Lia atravessou a porta das fendas enquanto a primeira marca aparecia no anteparo. Na Parte 3, descobriria que escolher uma pergunta experimental não é observar passivamente o mundo: é decidir quais alternativas podem permanecer juntas.