A porta |ψ|² levou Lia a uma câmara de colisões. Um feixe de elétrons entrava pela esquerda e encontrava um átomo no centro. Detectores cobriam as paredes como escamas. Em cada repetição, apenas um deles registrava o elétron espalhado e o átomo podia terminar em um de vários estados de energia.
A equação de Schrödinger construía uma onda incidente e componentes que saíam em diferentes direções. Cada componente carregava uma amplitude associada a um canal: elétron num certo ângulo, átomo em certo estado, energia total conservada. O cálculo produzia um mapa muito mais rico que uma única trajetória após o choque.
Max Born escolheu justamente colisões para perguntar o que esse mapa significava. Em 1926, aplicou a nova mecânica ondulatória ao espalhamento e propôs uma leitura estatística. A amplitude de uma componente não era a quantidade de matéria enviada continuamente naquela direção; determinava a probabilidade de o evento terminar naquele canal.
Lia tentou acompanhar o elétron durante o encontro. O Arquivo recusou uma órbita microscópica definida. A teoria fornecia o estado antes, a interação e amplitudes para resultados depois. Não dizia qual curva individual ligava entrada e saída como uma bala desviada por uma força conhecida a cada instante.
Essa ausência não era falta de cálculo. A função de onda podia ser determinada causalmente pela equação de Schrödinger, enquanto o resultado de uma única detecção permanecia aberto. A lei governava a distribuição dos eventos sem escolher antecipadamente qual detector clicaria naquela tentativa.
Tomás reduziu o feixe até que os cliques ficassem separados por longos intervalos. O mapa angular apareceu devagar, ponto por ponto. A probabilidade não dependia de elétrons formando uma multidão simultânea para negociar o destino; era testada por muitas preparações equivalentes ao longo do tempo.
No centro da câmara, o átomo permaneceu sem caminho desenhado. Lia percebeu que Born não acrescentara ruído à equação. Acrescentara uma ponte entre amplitude e resultado. Sem essa ponte, ψ era um mapa sem legenda; com ela, cada região do mapa fazia uma promessa estatística que detectores podiam cobrar.