A fornalha levou Lia a uma sala onde centenas de caixas negras ocupavam as estantes. Cada caixa tinha um pequeno furo. Nenhuma possuía lâmpada, vidro colorido ou mostrador. Ainda assim, de cada abertura saía uma luz diferente: vinho, cobre, ouro, branco.
— Não olhe para a parede da caixa — pediu Tomás. — Olhe para o buraco.
Um raio que entra por uma abertura pequena encontra poucas chances de escapar. Ele reflete muitas vezes nas paredes internas e acaba quase todo absorvido. Por isso uma cavidade com um orifício estreito aproxima um absorvedor ideal. Se as paredes são mantidas a uma temperatura fixa, a radiação lá dentro chega ao equilíbrio: emissão e absorção continuam acontecendo, mas as propriedades médias permanecem estáveis.
O detalhe decisivo era a universalidade. Trocar cobre por porcelana mudava o tempo necessário para atingir o equilíbrio e alterava imperfeições da superfície, mas a forma ideal do espectro que escapava do pequeno furo dependia da temperatura. Era como se materiais diferentes, depois de tempo suficiente, esquecessem seus nomes e falassem a mesma língua térmica.
Lia encostou um sensor na primeira caixa. Tomás ajustou todas à mesma temperatura. Os espectros se sobrepuseram no visor. A caixa não era negra porque emitia pouca luz. Era chamada corpo negro porque, no modelo ideal, não refletia nada do que recebia. Justamente por ser o absorvedor mais eficiente possível, também é o emissor térmico de referência em equilíbrio.
— Então a cor não pertence à caixa? — perguntou Lia.
— A forma do espectro pertence à temperatura — respondeu Tomás. — E isso transforma uma coleção de objetos num problema universal. Quando a natureza elimina os detalhes, normalmente está nos oferecendo uma lei.