Quando Lia encontrou a porta, o Observatório já estava fechado havia cento e três anos. A placa de bronze dizia ARQUIVO DA LUZ, embora atrás dela não houvesse janela alguma. Havia apenas uma fechadura morna e, no bolso de Lia, uma chave que ela jurava nunca ter visto.
A chave girou. Do outro lado não estava um arquivo, mas uma cidade noturna. As pedras da rua devolviam o calor do dia, as chaminés respiravam vermelho e, no alto, o céu parecia ter sido pintado com carvão. Um homem de casaco claro aguardava junto a uma fornalha. Chamava-se Tomás e dizia ser o cartógrafo daquele lugar. Não cartografava ruas: cartografava perguntas que tinham mudado o mundo.
— Toda coisa quente conta sua temperatura por meio da luz — disse ele. — Algumas falam no visível. Outras sussurram em infravermelho, que seus olhos não escutam.
Tomás abriu a portinhola da fornalha. Primeiro veio um rubor escuro. Ao aumentar a temperatura, o interior passou por vermelho, laranja e amarelo quase branco. Não era tinta escondida no metal. Corpos com temperatura acima do zero absoluto trocam radiação eletromagnética com o ambiente; a distribuição dessa radiação depende da temperatura e das propriedades da superfície.
A cidade fora construída para uma pergunta: se toda matéria é diferente, existe alguma luz térmica que não dependa do material? No fim do século XIX, a resposta parecia morar dentro de uma cavidade aquecida. E essa resposta brilhava de um modo que a física conhecida não conseguia explicar por inteiro.
Lia se aproximou. A fornalha não rugia como fogo. Emitia um acorde contínuo, grave nas paredes frias e cada vez mais agudo no centro. Tomás entregou-lhe um caderno vazio. Na capa havia uma única instrução: não confunda o que você vê com tudo o que existe.