A sala das duas fendas não terminou numa parede, mas num mapa. Cada impacto registrado no capítulo anterior reapareceu como um ponto luminoso: posição na horizontal, momento transversal na vertical. Lia tentou apertar a nuvem com os dedos. Sempre que estreitava uma dimensão, a outra se alargava.
Tomás fechou uma das fendas até restar uma abertura mínima. A passagem localizava melhor o elétron na direção transversal, mas o feixe saía mais espalhado. Não era apenas uma dificuldade para seguir uma bolinha escondida. Preparações repetidas, sob condições idênticas, produziam uma distribuição estreita de posições e uma distribuição larga de momentos.
O mapa não dizia que cada elétron possuía simultaneamente uma posição borrada e um momento borrado como tinta sobre papel. Dizia quais distribuições surgiriam se conjuntos igualmente preparados fossem submetidos a medições de posição ou de momento. Juntar os dois histogramas numa única trajetória exigiria uma hipótese adicional que o experimento não fornecia.
Lia trocou a fenda por uma preparação suave, sem bordas duras. O formato das curvas mudou, mas o compromisso permaneceu. Uma localização espacial muito concentrada precisava combinar muitos comprimentos de onda e, portanto, muitos momentos. Um momento quase definido exigia uma onda extensa, incapaz de apontar um endereço estreito.
A palavra incerteza parecia sugerir ignorância, como esquecer onde se guardou uma chave. Ali ela significava dispersão estatística inerente ao estado preparado. Mesmo um aparelho ideal e um protocolo perfeitamente conhecido não comprimiriam arbitrariamente as duas distribuições de posição e momento daquele estado.
Isso não tornava instrumentos irrelevantes. Detectores têm resolução finita, fontes oscilam e alinhamentos derivam. Essas imperfeições acrescentam incerteza experimental e precisam ser calibradas. O limite quântico começa depois que tais contribuições foram modeladas: ele pertence à estrutura dos estados, não à preguiça do técnico.
Tomás marcou duas escalas no mapa. Lia percebeu que precisava aprender a medi-las antes de falar em limite. Uma imagem difusa podia ter caudas longas, dois picos ou raros pontos distantes; dizer apenas ‘larga’ era insuficiente. O Arquivo abriu uma régua construída com probabilidades.