Sumário
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Salvando leitura…
Derivadas espaciais substituíam a energia cinética de uma trajetória

A máquina da energia

Uma equação para a evolução dos estados

Tomás abriu o Hamiltoniano como se fosse uma caixa de relógio. Dentro havia duas engrenagens. A primeira era marcada T, energia cinética. A segunda, V, energia potencial. Para uma partícula não relativística, sem spin e sujeita a um potencial local, a caixa podia ser escrita Ĥ=−(ħ²/2m)∇²+V.

Na mecânica clássica, a energia cinética é p²/2m. Na representação de posição, o momento torna-se o operador −iħ∇. Aplicá-lo duas vezes produz −ħ²∇², o Laplaciano. Curvatura espacial da função de onda ocupa então o lugar que o quadrado do momento ocupava na fórmula clássica.

Lia desenhou uma função quase plana e outra muito ondulada. A segunda mudava rapidamente no espaço e carregava componentes de momento maiores. O termo cinético detectava essa curvatura. A massa aparecia no denominador: para a mesma forma espacial, um objeto mais massivo tinha outra escala de resposta.

O potencial V(x,t) codificava interações externas na descrição simples. Uma região de potencial alto alterava a fase e a forma do estado; barreiras finitas podiam permitir amplitude além do trecho classicamente proibido. Ainda não era hora de atravessar túneis, mas a possibilidade já estava escrita na equação.

A caixa não era universal na forma de uma partícula. Em três dimensões, entram três coordenadas. Para muitas partículas, ψ depende das coordenadas conjuntas e o Hamiltoniano inclui interações entre elas. Campos magnéticos, spin e relatividade mudam os termos. A fórmula elementar é um caso fértil, não a definição completa de toda física quântica.

Tomás escolheu V=0 e uma onda plana ψ proporcional a exp[i(kx−ωt)]. Ao aplicar o Hamiltoniano, a derivada espacial devolveu ħ²k²/2m vezes a própria onda. A equação temporal exigiu ħω=ħ²k²/2m, a relação de energia de uma partícula livre não relativística.

As engrenagens se fecharam. Lia percebeu que o Hamiltoniano não dizia apenas quanta energia havia. Dizia como cada forma possível reagia ao tempo. Alterar o potencial era alterar a gramática da evolução; resolver a equação era descobrir quais estados essa gramática permitia e como suas fases se moviam.

Fontes desta página

  1. Erwin Schrödinger (1926). Quantisierung als Eigenwertproblem — Zweite Mitteilung.Annalen der Physik, 384(6), 489–527. Segunda comunicação, desenvolvendo a relação entre a mecânica clássica de Hamilton–Jacobi, óptica e a nova equação de ondas.
  2. Erwin Schrödinger (1926). Quantisierung als Eigenwertproblem — Vierte Mitteilung.Annalen der Physik, 386(18), 109–139. Quarta comunicação, apresentando a forma dependente do tempo e a conservação da norma na mecânica ondulatória.