A terceira sala não tinha lâmpadas. Um tubo comprido apontava para um bloco de grafite, e um braço metálico podia girar ao redor dele como o ponteiro de um relógio. Na extremidade do braço havia um cristal e uma câmara de ionização. Tomás fechou a pesada porta antes de ligar o aparelho.
— Raios X não avisam sua presença aos olhos — disse. — É por isso que um laboratório responsável os cerca de blindagem, dosimetria e distância. O Arquivo pode reconstruir um experimento; não transforma radiação ionizante em brinquedo.
O tubo produzia raios X com uma linha espectral conhecida. Um feixe estreito atingia o grafite. Parte atravessava, parte era absorvida e parte saía em outras direções. O detector giratório selecionava um ângulo de espalhamento. O cristal, por difração, permitia determinar os comprimentos de onda presentes naquele feixe desviado.
Lia esperava encontrar a mesma linha que entrara, apenas mais fraca. Em vez disso, o detector revelou uma segunda componente em comprimento de onda maior. Quanto maior o ângulo entre a direção original e a direção observada, maior era o deslocamento. O raio X voltava, por assim dizer, com menos energia.
Arthur Compton vinha estudando o espalhamento de raios X e raios gama. No artigo recebido no fim de 1922 e publicado em 1923, propôs tratar o evento como uma interação entre um quantum de radiação e um elétron. O quantum mudava de direção, perdia energia e momento; o elétron recuava levando a diferença.
O grafite não emitia uma ‘nova cor’ no sentido visível. Comprimentos de onda de raios X são milhares de vezes menores que os da luz que Lia enxergava. A palavra cor servia apenas como intuição para frequência e comprimento de onda. O espectrômetro, não a retina, distinguia as linhas.
No caderno, Lia desenhou uma seta entrando, outra saindo inclinada e uma terceira apontando para o recuo do elétron. Na sala anterior, a luz entregara energia e desaparecera no material. Agora uma parte saía novamente. Para fechar a conta, não bastava saber quanta energia restara. Era preciso acompanhar direções.