EPR começou definindo o que uma teoria completa deveria fazer: cada elemento da realidade física precisaria ter um correspondente na teoria. Como reconhecer ao menos alguns desses elementos? Se fosse possível prever com certeza o valor de uma quantidade sem perturbar o sistema, os autores a tratariam como elemento de realidade.
Tomás sublinhou ‘condição suficiente’. O artigo não afirmou que somente quantidades previsíveis com certeza são reais. O critério oferecia um caminho seguro para incluí-las, não uma lista exaustiva de tudo que poderia existir. Trocar suficiente por necessário faria o argumento dizer mais do que seus autores escreveram.
Lia preparou uma partícula com posição nítida e previu onde um detector ideal a encontraria. Nesse caso simples, o formalismo atribuía um estado correspondente. Mas EPR queria usar a mesma regra quando a certeza vinha de uma correlação: medir o parceiro próximo e inferir o valor do sistema distante.
A expressão ‘sem perturbar’ carregava o peso. Depois da separação, uma intervenção na caixa A não deveria causar uma mudança física real na caixa B. Se essa separabilidade fosse aceita, a certeza sobre B revelaria algo que já podia ser considerado seu, embora a mecânica quântica atualizasse a função de onda condicionada ao resultado em A.
O critério não pressupunha que todo fenômeno fosse determinista. Ele se aplicava às quantidades cuja previsão era certa naquele arranjo. Outras poderiam continuar estatísticas. O alvo era mostrar que pelo menos dois elementos incompatíveis pareciam poder ser atribuídos ao sistema distante a partir de escolhas alternativas.
Também era preciso distinguir certeza condicional de controle. Saber que os resultados serão correlacionados não permite escolher qual resultado aparecerá no primeiro laboratório. A previsão do segundo torna-se certa depois de conhecer o primeiro registro; antes disso, cada resultado continua distribuído segundo a regra de Born.
O critério ficou escrito entre as caixas como uma ponte lógica. Ele não era um detector e não produzia dados novos. Era uma proposta filosófico-física sobre quando uma previsão autoriza falar de realidade. Bohr atacaria a ambiguidade dessa ponte, não a correção algébrica das correlações.