Sumário
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Salvando leitura…
Prever com certeza e sem perturbar era condição suficiente de realidade

O critério sem testemunhas

Realidade, completude e uma provocação de 1935

EPR começou definindo o que uma teoria completa deveria fazer: cada elemento da realidade física precisaria ter um correspondente na teoria. Como reconhecer ao menos alguns desses elementos? Se fosse possível prever com certeza o valor de uma quantidade sem perturbar o sistema, os autores a tratariam como elemento de realidade.

Tomás sublinhou ‘condição suficiente’. O artigo não afirmou que somente quantidades previsíveis com certeza são reais. O critério oferecia um caminho seguro para incluí-las, não uma lista exaustiva de tudo que poderia existir. Trocar suficiente por necessário faria o argumento dizer mais do que seus autores escreveram.

Lia preparou uma partícula com posição nítida e previu onde um detector ideal a encontraria. Nesse caso simples, o formalismo atribuía um estado correspondente. Mas EPR queria usar a mesma regra quando a certeza vinha de uma correlação: medir o parceiro próximo e inferir o valor do sistema distante.

A expressão ‘sem perturbar’ carregava o peso. Depois da separação, uma intervenção na caixa A não deveria causar uma mudança física real na caixa B. Se essa separabilidade fosse aceita, a certeza sobre B revelaria algo que já podia ser considerado seu, embora a mecânica quântica atualizasse a função de onda condicionada ao resultado em A.

O critério não pressupunha que todo fenômeno fosse determinista. Ele se aplicava às quantidades cuja previsão era certa naquele arranjo. Outras poderiam continuar estatísticas. O alvo era mostrar que pelo menos dois elementos incompatíveis pareciam poder ser atribuídos ao sistema distante a partir de escolhas alternativas.

Também era preciso distinguir certeza condicional de controle. Saber que os resultados serão correlacionados não permite escolher qual resultado aparecerá no primeiro laboratório. A previsão do segundo torna-se certa depois de conhecer o primeiro registro; antes disso, cada resultado continua distribuído segundo a regra de Born.

O critério ficou escrito entre as caixas como uma ponte lógica. Ele não era um detector e não produzia dados novos. Era uma proposta filosófico-física sobre quando uma previsão autoriza falar de realidade. Bohr atacaria a ambiguidade dessa ponte, não a correção algébrica das correlações.

Fontes desta página

  1. Albert Einstein, Boris Podolsky e Nathan Rosen (1935). Can Quantum-Mechanical Description of Physical Reality Be Considered Complete?.Physical Review, 47, 777–780. Formula o critério de realidade e usa correlações entre sistemas separados para argumentar que a função de onda não constitui uma descrição completa da realidade física.
  2. Niels Bohr (1935). Can Quantum-Mechanical Description of Physical Reality be Considered Complete?.Physical Review, 48, 696–702. Responde ao argumento EPR apontando ambiguidade no critério de ausência de perturbação e defende a completude da descrição quântica pela complementaridade.
  3. Erwin Schrödinger (1935). Discussion of Probability Relations between Separated Systems.Proceedings of the Cambridge Philosophical Society, 31, 555–563. Analisa famílias de observáveis correlacionadas em sistemas separados e desenvolve matematicamente as relações de probabilidade evidenciadas pelo argumento EPR.