Sumário
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Salvando leitura…
Capítulo 17 · A carta de EPR

A carta que perguntava pela realidade

Realidade, completude e uma provocação de 1935

A carta que Lia abrira no fim do mar metálico tornou-se um artigo de quatro páginas. O Arquivo registrou a data documental: 15 de maio de 1935. Albert Einstein, Boris Podolsky e Nathan Rosen publicaram na Physical Review uma pergunta precisa sobre a completude da descrição quântica da realidade física.

A sala de Princeton que apareceu ao redor dela era uma reconstrução baseada no texto publicado, não uma gravação de conversas privadas. Nenhum dos três autores recebeu pensamentos inventados. Sobre a mesa estavam apenas as definições, o estado matemático e a cadeia de inferências que qualquer leitor podia conferir.

O título não perguntava se a mecânica quântica acertava espectros ou probabilidades. EPR aceitava o êxito dessas previsões. A questão era outra: a função de onda continha uma descrição completa, ou existiam fatos físicos que ela não representava simultaneamente? Precisão empírica e completude ontológica não eram a mesma afirmação.

Tomás colocou duas caixas distantes. Os sistemas haviam interagido e depois se separado, mas uma única função de onda ainda descrevia o conjunto. Medir a primeira caixa permitiria prever com certeza um resultado correspondente na segunda. A distância transformava essa correlação numa prova de consistência para qualquer ideia de realidade separável.

Lia esperava a frase popular sobre uma ação fantasmagórica. Ela não apareceu no artigo. O argumento original trabalhava com posição e momento, critérios de realidade e ausência de perturbação distante. Expressões posteriores podem resumir o desconforto de Einstein, mas não substituem o raciocínio que EPR efetivamente publicou.

A provocação também não era uma negação da incerteza medida num único aparelho. EPR montaria duas alternativas experimentais sobre partes diferentes de um estado correlacionado. Em uma, a primeira medida permitiria prever a posição distante; em outra, o momento. A liberdade de escolher a pergunta sustentava a tensão.

A carta não trazia uma solução escondida. Trazia um padrão para julgar teorias: explicar quais propriedades podem ser consideradas reais, quais operações as revelam e por que uma ação aqui deveria ou não alterar a descrição completa do que está longe. Lia entrou no argumento antes de decidir quem tinha razão.

Fontes desta página

  1. Albert Einstein, Boris Podolsky e Nathan Rosen (1935). Can Quantum-Mechanical Description of Physical Reality Be Considered Complete?.Physical Review, 47, 777–780. Formula o critério de realidade e usa correlações entre sistemas separados para argumentar que a função de onda não constitui uma descrição completa da realidade física.
  2. Niels Bohr (1935). Can Quantum-Mechanical Description of Physical Reality be Considered Complete?.Physical Review, 48, 696–702. Responde ao argumento EPR apontando ambiguidade no critério de ausência de perturbação e defende a completude da descrição quântica pela complementaridade.
  3. Erwin Schrödinger (1935). Discussion of Probability Relations between Separated Systems.Proceedings of the Cambridge Philosophical Society, 31, 555–563. Analisa famílias de observáveis correlacionadas em sistemas separados e desenvolve matematicamente as relações de probabilidade evidenciadas pelo argumento EPR.